domingo, 18 de fevereiro de 2018

sábado, 17 de fevereiro de 2018

PRAIA LONTANO





Lançamento Praia Lontano, Pedro Góis Nogueira

Capa e paginação Rui A. Pereira, edição letras paralelas / Campo das Letras.

Apresentação por Elisa Costa Pinto 

Leituras por Nuno Góis

Livraria Círculo das Letras - Rua da Voz do Operário, 62, 1100-621 



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

103.


[Mesquita-Catedral, Córdova, 2018]

Não fosse Sevilha e Granada a servirem de filtro e Córdova como existe já não existia. Ali, como em nenhum outro lugar, nem mesmo Granada, se sente o Al Andalus como presente dos tempos. Tem ruas e recantos onde tudo se mantém intacto, onde se fizermos acertos é como se uma civilização inteira tivesse ido dali embora a semana passada. É como um carimbo que nos marca ainda (um) fresco de um apogeu. Muito mais urgente e importante desde que o fanatismo destruiu Palmira, ou Aleppo. Depois de todas as mesquitas que se fizeram igrejas ou catedrais como a de Sevilha. Ou catedrais que se fizeram mesquitas como as de Istambul. Tal como refere o excelente Luis Récio Mateo, lendário guia da Mesquita-Catedral: "Córdoba es la continuación de Damasco". Quem somos nós para o negar. Ou como contradizê-lo quando diz que é aquele o último bastião da paz e coabitação entre as duas mais conflituosas religiões da Terra. Verdade é que Córdoba é um centro de generosidade que grava intacta sua memória, que mostra orgulhosa seu admirável instinto de conservação, capaz de um contínuo cuidado com suas mais fundas raízes. Só mesmo Córdova na mediterrânea Europa para encontramos esse fascínio que encontrou o Islão em Bizâncio sem neutralizar o românico esplendor. Viramos o disco ao contrário, sabendo que fellahmenghu quer dizer um poeta a cantar e a verdade é que os tablaos não pararam de crescer. Continuem pois os Estados Unidos a fazer filas de três horas para o Alhambra. É da maneira que podemos entrar pela Mesquita-Catedral quando nos der na gana. Pelo menos até que venha o papa.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

102.


Há esse Estádio na Pedreira de Braga, arquitectado por Souto Moura
Pressente no futuro além da cidade 
Dirige-se de um passado cantábrico
Podemos ver bem detrás desse fotograma
Um corpo habita sua mecânica
A cada milímetro, milénio 
assalta a grama. 
Pode ir de Vertov a Brésson 
Philip K. Dick
Rima a Edgar Pêra
No que entretanto é Covadonga. 

101.



Estádio Municipal de Braga (ou Estádio AXA, se quiserem), 2017




Capa, ilustração e paginação Rui A. Pereira
letras paralelas
(159 pp, tiragem de 300 exemplares)
Na livraria Círculo das Letras - Rua da Voz do Operário, 62
Pedidos para gn.pedro@gmail.com - 13€, portes pagos


101.



SAUDADES DE LISBOA

1.
Saudades tantas saudades pujantes
Faria já mais de 500 quilómetros
Só para ver Lisboa
Amanhecer

2.
Mas não é a ti que vou atender
Não, quando estou em Lisboa 
Não quero o meu tempo patrulhado pela minha ausência 
Preciso travar contas com a cidade

3.
Eu naquela dor aquela casa
Era toda esta amargura que sinto agora
Era o sofrer que já sofria
O futuro a pairar a ver-me 
Perder em negrura

4.
É por isso que as saudades remetem a outra zona da cidade
Trazem-me o rio e as ruas que sobem 
Montanhosa ribeirinhas
Como só Lisboa sabe ser

6.
Era o que era: destruir sempre
Para sempre poder começar de novo

7.
Mas quando tu me tocas eu sinto o sentido inteiro que é 
Agora

100.

1.
Japanese Breakfast não resulta no carro. Lloyd Cole sim. Lloyd Cole resulta mais que nunca. Dança pelas curvas a levitar o carro em velocidade pelas altitudes de uma tarde de Sol no Inverno bem entrado na Galiza na direcção de Ourense. De resto é o corte. Não saber bem puxar o carro para trás e deixar um ligeiro (íssimo) arranhão na lateral de outro carro. Que desastre! Vale a generosidade do atingido. Um velho senhor galego de olhos compassivos. Deus o abençoe. Não me senti seguro. Nunca me sinto seguro, aliás. Paguei a mensalidade da dívida à Segurança Social. Li o jornal "A Bola". Escrevi para um portal desportivo a crónica (que não é crónica nenhuma) da final da Taça da Liga de ontem. De bola mais tarde vi os últimos dez minutos de um Getafe a satisfazer-me a ânsia de justiça divina pelo que o Sevilla fez a Berizzo. Mas o que sei eu sobre isso? O que sei, claro está, toca num dos meus valores mais caros. E o que não sei não interessa tanto como o que sei. Claro que houve justiça divína, o Betis foi ao Sanchez Pizjuan espetar cinco contra três, bela Getafada. 

2.
Ir a Portugal só para ir ao Pingo Doce. Poderia explicar. Mas dar-me ia um texto muito chato de escrever. De óbvio. De prosaico. Não tenho a culpa que Portugal e Espanha se ignorem olímpicamente. 

3.
Onde é que se encontra hoje grandeza em Portugal? Tenho umas ideias. Ou talvez nem sejam bem ideias. Ou talvez até sejam, não sei. Verdade é que não concluem nada. E só o ter de andar à procura de uma resposta... que encontrei. Claro que encontrei. Dei com dois tipos de grandeza. Uma de tipo heróico; outra de tipo óbvio. 

4.
Quase sinto vergonha de não termos um escritor da estatura de um Javier Marias. E nem nos vamos abismar pelas leituras adentro... 

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

99.



NOTAS A PARTIR DE 82 RETRATOS DE DAVID HOCKNEY


A luz de Los Angeles de frente para. A ponta do pincel. Cada 
Toque particular apanhado à primeira 
Diz sempre a luz amiga
E as cores alegres
Claro que o auricular da exposição se limita ao jornalismo
Generaliza o bem, explica como se fosse tudo
Sem dizer nada sobre o que realmente é
Como em cor Kockney respira
A afinidade ou esse preciso onde nasce a cor afecto 
Ao esplêndido o momento azul solarizado
Eléctrico onde não há como nos queimarmos
Ou como se capta a luz do negativo preciso 
Pelo espontâneo do nó mesmo desprendido 
Da leveza com que se recebe
Para nos podermos cristalizar nesse grande afago: o abraço à mistura.


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018




Começou no Museu Guggenheim, acabou no Café Bilbau, à Praça Maior; ainda passei na Praça Miguel de Unamuno, e uma ou outra rua do Casco Viejo mas o tempo e o tempo não deram para mais. David Hockney, sobretudo David Hockney, mas também Robert Rauschenberg, Damián Ortega, Anselm Kiefer, Richard Long ou Richard Serra ao magnífico encontro do Guggenheim não deram espaço. Tivesse seguido minha intuição, aproveitando o sol a abençoar a manhã, enfim, guardava para o dia seguinte e toda aquela chuveirada incessante. Agora sinto-me obrigado a regressar. À cidade que tão bem explica como se consegue juntar Espanha à mítica Euskal Herria, o que nem os romanos conseguiram. Diz que também tem menos fantasmas que grande parte do resto de Euskadi. Por mim falo, vi uns quantos a 23 quilómetros, em Amorebieta, não dei por nenhum em Bilbau. 


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

98.


1 - As raízes da civilização seguram-nos, asseguram-nos.

2 - Podemos escrever além. Brindemos à nossa!

3 - A tragédia faz parte da equação da vida. Melhor viver com ela. Antes que tome parte de ti próprio. A equação, a não vida. 

4 - Se as tuas palavras são espadas, então escreve como espadas. Dirige-te ao mestre de esgrima, teu futuro. 



Foz, Porto, 2017

97.


CATALUNHA CIRCO

Acordo com a Catalunha a tocar, acordo
A Catalunha está sempre a tocar
Nas televisões, remetidas, presumíveis informativos
À altura, o acontecimento
Rematando, entretendo
É o mais duro político
O entretenimento
Remata, remata, e arremata
Vai fora, até da própria pele
Tanto dicionário didáctico, tanto esclareço tudo
Tudo a cingir, ao erro crasso

A Catalunha não toca em nada

A prova é que mergulhei na piscina ninguém
A hidro-massagem depois
Génese romano-aristocrata
E a Catalunha, enfim...
Os francos estão à porta do hotel




Ourense, 2017

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Zé Pedro




Sempre o vi em grande. Dos tempos do Johnny Guitar aos concertos com os Xutos. A pôr música, a tocá-la. Em Lisboa. Na Zambujeira do Mar. Em Odemira, num magnífico 25 de Abril, sempre nos máximos, sempre generoso, homem da dádiva do rock'n'roll. Bom astral a emanar sempre que o vi por aí. Uma delas a comprar discos quando havia ainda discos no Amoreiras. Quem falava dele só dizia maravilhas. As mesmas que se ouvem agora e tudo bate certo. Todos queriam conhecê-lo. Não o conheci pessoalmente, conheci-o pelas cassetes do meu irmão, eterno fã dos Xutos.
Também me lembro dos programas de rádio com o Henrique Amaro. Depois outros, pelos tempos afora. Vias da descoberta do bom velho rock'n'roll. Bandas que descobri por ele. Sempre a dar o novo, sempre renovado, sempre a dar esperança. Sempre a espalhar as boas ondas. Até mesmo neste último combate com a doença, dava-nos a certeza que se safava. A gente acreditava. Belas entrevistas também as deu. Era um homem que viveu. Viveu e fez os outros viver. Em alta. Encarnando o melhor espírito do rock'n'roll. E como todos os rockers que se prezem morreu jovem. Jovem no sentido em que Iggy Pop morrerá jovem. Jovem como tudo o que nos sobrevive. Não morrer de velho é a verdadeira lição. E podermos olhar o ser humano como uma homenagem. Como algo que verdadeiramente valeu a pena. Obrigado, Zé Pedro!

sábado, 25 de novembro de 2017






- Há livros que são injustamente esquecidos; nenhum é injustamente lembrado.

- A mão busca constantemente um pretexto para deter-se.

- Muitos escritores sofrem de vez em quando de ataques de falsidade, tal como outros sofrem períodos de insónia. O remédio em ambos os casos é bastante simples: se não se consegue dormir, há que mudar a dieta; se não se consegue escrever, há que mudar as companhias.

- Alguns escritores confundem autenticidade, ao qual devem sempre aspirar, com originalidade, da qual ninguém se deveria preocupar.

- Pouco talento basta para enxergar o que está mesmo em frente ao nosso nariz, mas é preciso muito para saber em que direcção apontá-lo.

- O poeta não deve apenas cortejar sua musa, senão também a sua dama: a filologia.

- A impossibilidade de definir a relação, junto à impossibilidade de negá-la, constitui a essência dos versos.

- É algo frívola a ideia de ler apenas os grandes poemas. As obras-primas devem guardar-se para as festividades mais importantes do espírito.

- Nunca se saberá do que se é capaz de escrever se não se tem uma ideia geral do que é preciso escrever.

- O poema é um rito: daí seu carácter formal e ritual. O uso que se faz da linguagem é deliberado e ostensivamente diferente da fala comum. Incluindo quando se empregam a entoação e o ritmo da conversação, faz-se com uma informalidade deliberada, propondo a norma com a qual se pretende produzir um contraste.

- Se há poucos artistas "comprometidos", é porque seu modo de vida não os compromete: para bem ou para mal, não pertencem de todo à cidade.

- O ideal da civilização é a integração num todo do maior número possível de actividades distintas com a menor tensão possível entre elas.

- Se uma civilização se joga segundo o duplo padrão do grau de diversidade obtido com o grau de unidade conservado, dificilmente resulta exagerado afirmar que os atenienses do século V a.C. foram as pessoas mais civilizadas que alguma vez existiram.

- A fonte da poesia há de buscar-se, como afirmou Yeats, «na quinquilharia suja do coração».

- Na maioria das manifestações de patriotismo é impossível distinguir uma das maiores virtudes - o amor à pátria -, do pior dos vícios humanos: o egoísmo colectivo.


sexta-feira, 24 de novembro de 2017




96.

Mastigar pode ser uma meditação
Mastigar enquanto se processam coisas
Pensadas em desagravo
Ao sabor da iguaria
Frita mastiga pensa
É um cavalgar na tardinha
É o lá mais tarde fora 
É um silêncio apenas
Pelo som do elevador ao lado 
Daqui a nada

95.


Comboio. Cais do Sodré. Sandes de queijo e presunto. A brasileira e os turistas. O táxi. Aquele restaurante do choco frito. A Voz do Operário. Meus livros na montra. A sensação nenhuma. Passem bem tchauzinho. A primeira vez que pisei o chão da Penha de França. E quando nasci estava mais perto. O mercado cheio de Arroios. O preço já a cobrar o futuro. Se te preocupardes, não fruirdes, diz ela. Não explodir, não cristalizar. E não se fala mais nisso.

sábado, 11 de novembro de 2017

Estrada dos Prazeres



Capa, ilustração e paginação Rui A. Pereira
letras paralelas
(159 pp, tiragem de 300 exemplares)
À venda na livraria Círculo das Letras - Rua da Voz do Operário, 62




Andaluzia, 2017 

domingo, 5 de novembro de 2017

94.


- Viver no estrangeiro, conseguir encaixar peças, sumamente respirar, poder respirar dá-me o poder de respirar. 

- O que há em escrever é seguir escrevendo.

 - Pessoas que acham que o seu ódiozinho a Espanha é salvo-conduto para a mal encarada intelectual desonestidade, para (o) poder (de) desperceber, para o grunhir à vontadinha.... 

 - Lido algures: "The reason wisdom is better than knowledge is because that no one can take it from you."

----------------------------------------

Um avião passa ao longe
A 160 km daqui
Vai chegar
Onde aterrou ontem
Penso que só há uma maneira
De tu poderes descer aqui 
E para o provar a mim próprio 
Tiro mais um café da máquina

quinta-feira, 2 de novembro de 2017





Sines, 2017


93.


POR UMA VARANDA DESTE HEMISFÉRIO VEJO O PRINCÍPIO DE TODAS AS ESTRADAS


A folha é um oráculo, escrever é consultar o oráculo. O oráculo pode ser a água que nos transporta até ao cume da montanha. A escrita leva-nos, leva-nos sempre, nem que maremotos. A escrita é a passagem (pelo) impossível para o outro lado, impossível pelo impossível arrastado. Só mesmo a escrita nos pode navegar do seco deserto ao cume da montanha. Só mesmo a escrita subverte as leis da gravidade. A gravidade congrega, a água navega, a escrita congrega-navega. O leitor é a prova à prova dessa realidade a constante: o leitor navega-congrega.

A folha é a matemática, escrever a equação de um buraco negro antes estrela de neutrões onde começámos esmagados como Raskólnikov de encontro a uma parede. Tudo a posteriori. A posteriori do que não sabemos. A priori temos um barco, a folha, temos o deserto, areia, temos água, temos montanha. Temos mundo avessos, contrários. Escreveremos a longínqua matéria negra; nenhures a anti-matéria… Escreveremos tudo o que sabemos (do) que (não) sabemos. Do céu estrelado, milhões de estradas, estradas até lendas, a rumar ao remoto - e em cada estrada um milhão de estradas, e em cada estrada de um milhão de estradas outro milhão de estradas - o infinito em contra nada, a anti-luz emaranhada. 

Toda a jornada acabará no terminal de chegada o terminal de partida. Dali só dali se iniciaram todas as viagens, é para lá que se dirige toda a viagem. No princípio de todas as estradas o fim de todas as estradas. O início o fim das estrelas a luz toda a luz de onde se vê o caminho para as estradas - não fossem as estrelas as próprias estradas.

Somos nós próprios a iluminamos a própria Via, Láctea folha. A quem dirá que o tempo não se existe responderemos que o tempo desta mão não é o mesmo dos olhos que a vêm. Diremos tudo é estrada, tudo é estrada, tudo é estrada. Que só o presente condensa. Que só o presente aqui-agora é o arquitecto de todos os tempos. Que só o presente acha todo o tempo ao mesmo tempo. Que só o presente dispara memórias a todos os tempos a todos os espaços. De olhos fechados podemos nada saber das pedras da primeira estrada. Mas pela escrita escreveremos presente a todas as estradas, a todos os terminais. Escreveremos as mais importantes lições das bifurcações, das escapatórias, das divisórias de segurança... Diremos que das entre-estrelas o alfabeto consuma e congrega-navega. Daí convido eu agora o leitor a vir comigo um instante ali à varanda desta sala onde escrevo. Vê-se bem Sírius a oito anos luz. A escrever bem podemos conceber ali umas férias.